MULHERES DO GRAFITE

Quando tudo começou…

Já há anos que, constantemente, observamos nas paredes e fachadas das cidades, as famosas pichações. Essas, normalmente, eram feitas ilegalmente sem a aprovação da população em geral e dos proprietários dos imóveis, que tinham suas paredes denegridas e rabiscadas. Nesses “desenhos” eram retratados nomes, apelidos, siglas e frases nada agradáveis. Os pichadores disputavam quem conseguiria colocar seu nome ou sigla mais alto nos arranha-céus das cidades. Mas, graças a organização de grupos que visavam profissionalizar essas “pichações”, essa disputa e seus rabiscos deram lugar a uma arte hoje chamada de grafite, aonde os artistas pintam os muros legalmente com desenhos belíssimos. O grafite se tornou uma arte com enorme prestígio em todo o mundo.

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Mas o que é o grafite e qual a sua origem?

O grafite, variação do italiano graffiti, é, por definição, uma forma de manifestação artística em espaços públicos e surgiu nos subúrbios de Nova Iorque, nos Estados Unidos, associada à cultura do hip hop.

Essa arte de expressão visual, desembarcou no Brasil no final da década de 60, com os grafiteiros Alex Vallauri, Waldemar Zaidler e Carlos Matuck, e, assim como o grafite americano, os artistas brasileiros expressavam, nos murais, a realidade do cotidiano das periferias.

Em razão da predominância de homens no grafite e do destaque que recebem, este segmento da arte é rotulado por ser parte integrante apenas do universo masculino. Porém, com a expansão do movimento feminista e a proclamação da bandeira do empoderamento feminino, as mulheres têm figurado e protagonizado a expressão do grafite ao redor do mundo.

As grafiteiras de respeito no cenário internacional

Em 1970, a artista Sandra Fabara, conhecida por Lady Pink, que representava as mulheres grafiteiras nas ruas de Nova Iorque. Lady Pink nasceu no Equador e foi a primeira mulher a competir com os homens do movimento hip hop, e, por muito tempo, foi a única neste universo. A arte feita por Lady Pink era exibida em galerias desde a sua adolescência e posteriormente, ela teve um importante papel na transformação do grafite em arte plástica.

Lady Pink expôs suas obras em coleções do Metropolitan Museum of Art e do Brooklyn Museum, na cidade de Nova Iorque, EUA, e do Groninger Museum, na Holanda.

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Outra mulher reconhecida no cenário do grafite mundial é o de Kathleena Howie, com o nome artístico de Lady K-Fever. Esta iniciou sua carreira Vancouver, Canadá, criando uma instalação para o movimento punk e feminista Riot Grrrl. Lady K-Fever foi a primeira mulher canadense a pintar no Graffiti Hall of Fame de Nova Iorque, EUA. Suas obras foram exibidas em importantes centros de artes do mundo, como o Musem of Modern Art – MOMA, e publicadas nos periódicos norte-americanos New York Times e Daily News. Figuram ainda no cenário internacional outras artistas de destaque, como a americana Swoon, as francesas Miss Van e Kashink, as japonesas Lady Aiko e Sasu, a polonesa Olek, e Hassani, uma das primeiras artistas mulheres do Afeganistão.

As grafiteiras no Brasil

No Brasil, o grafite veio como meio de expressão e divulgação das causas da periferia das cidades, como as vítimas do preconceito, da violência e da desigualdade social. Com a participação efetiva da mulher no grafite, assuntos importantes como a violência doméstica, a opressão masculina, o abuso sexual, a ditadura da beleza e a discriminação de gênero, passaram a integrar a arte do grafite e ser divulgada por ele. As grafiteiras brasileiras expressam, nas suas criações urbanas, a voz daquelas que são oprimidas pela cultura machista.

A pioneira no grafite brasileiro é a paulistana Nina Pandolfo que, no início de sua carreira, pintava telas e, posteriormente, migrou para os murais das ruas de São Paulo. Nina utiliza como base para suas criações, a natureza e a atmosfera do lúdico, remetendo à infância. Seu trabalho em uma temática diversificada que se desmembra entre a crítica social, o feminismo e trabalhos apenas artísticos.

A estética de suas criações atrai a atenção dos grandes colecionadores de arte, sendo assim, naturalmente, Nina é uma das artistas brasileiras com maior notoriedade internacional.

A artista integrou o time brasileiro do The Graffiti Project, formado pela dupla Os Gêmeos e o artista Nunca, que juntos pintaram, a pedido do Lord Glasgow Patrick Boyle, o Castelo de Kelburn na Escócia.

O grafite na militância feminista

Um dos nomes mais reconhecidos no cenário do grafite brasileiro no que se refere à militância feminista, é o da carioca Pamela Castro, de codinome Anarkia Boladona. A artista encontra, nos princípios do feminismo, a inspiração para suas criações. Pamela Castro obteve reconhecimento internacional, sendo considerada em 2017, pelo canal de notícias norte-americano CNN, como a rainha do grafite brasileiro.

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Anarkia Boladona também figurou, na lista da revista americana Newsweek, como uma das cento e cinquenta mulheres que estão “bombando” no mundo. Pamela Castro utiliza do seu reconhecimento profissional para fomentar ações sociais, como o projeto “Grafiteiras pela Lei Maria da Penha”, criado em 2008, e o programa “#AfroGrafiteira”, criado em 2015.

O empoderamento feminino crescente em todas as áreas da sociedade, não poderia deixar de abranger o grafite, sendo assim, vários novos nomes de grafiteiras brasileiras passaram a ter reconhecimento nacional, como: Simone Sapienza (codinome Siss), Mag Magrela, Mari Pavanelli, Camila Pavanelli (Minhau), Eveline Gomes (Sinhá), Ananda Nahu, Tainá Lima (Criola) e Ana Carolina (Tikka).

CREW  PELO BRASIL A FORA – CONTRA O PRECONCEITO

É impressionante como, mesmo nos dias de hoje, as grafiteiras ainda se deparam com o preconceito nas ruas. Sendo assim, elas têm de se organizar em grupos, para sair às ruas, sendo esses conhecidos como CREW.

Em São Paulo, existe o Crew Noturnas desde 2006. Já no Rio de Janeiro, destacam-se o TPM Crew, criado em 2002, e a Rede NAMI, idealizado pela grafiteira Pamela Castro (Anarkia Boladona), que atua na luta contra a violência doméstica. Em Minas Gerais surgiu, em 2005, o Crew As Minas de Minas e tem, como foco, campanhas de empoderamento feminino. No Nordeste, devido à cultura machista da região, os esforços estão concentrados na luta contra o preconceito de gênero, o que fez surgir, em Salvador, a Crew Toque Feminino, e em Pernambuco a Flores Crew, a 33 Crew e a Queixas Crew.

O grafite é a arte efêmera que democratiza o espaço da arte erudita reservada às elites, transformando o excluído social em protagonista de sua história. É a arte que trata das questões sociais dos desfavorecidos, que oferece a possibilidade de expressão da insatisfação com o poder público e permite retratar as mazelas de uma sociedade desigual. A presença feminina neste meio não tornou o ambiente mais sensível, pelo contrário, tornou este segmento mais engajado socialmente e criou um diálogo da mulher com o mundo, promovendo a igualdade de gênero.

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